Fatores e atitudes que influenciam a realização da logística inversa. O caso dos consumidores portugueses
Tradicionalmente, as matérias-primas dão origem a produtos que chegam aos consumidores através dos canais de distribuição. A logística é responsável por reduzir diferencial entre a produção e a demanda dos consumidores, planeando e coordenando toda a cadeia para se atingir um serviço de qualidade a custos mais baixos. Porém com o aumento da preocupação ambiental por parte dos consumidores e governos, a logística empresarial vem sendo modificada. A partir disso, o fluxo de materiais ao longo do canal de abastecimento deixa de ser uma via de mão única (fornecedores → consumidores) para uma via de mão dupla (fornecedores ↔ consumidores) (Figueiredo, 2014).
Com os novos hábitos de consumo, competição e legislação as empresas que anteriormente ignoravam a quantidade de produtos pós consumo passaram a ter mudanças significativas no âmbito da gestão (Silva & Leite, 2012), buscando por eficiência, compreensão do relacionamento com o consumidor, gestão de custo, preço e o melhor aproveitamento de produtos que seriam descartados (Silva et al., 2020).
A Logística Inversa (LI) tornou-se então numa área de atuação que abrange as necessidades das empresas e do consumidor, ou seja, é a área da logística empresarial que planeia, trata e controla o fluxo e a informação sobre a devolução de produtos pós-venda e pós-consumo no ciclo de produção, agregando valor de natureza econômica, ecológica, legal, logística, de imagem, … (Leite, 2002).
Muito são os setores que possuem atividades ligadas à LI. A titulo de exemplo menciona-se as empresas de higiene e beleza. Empresas como Mac, Lush, O Boticário, entre outras criaram formas de comunicação com o consumidor para retornar recipientes de produtos de higiene e beleza pós consumo (Testoni, 2017). Essas iniciativas colaboram para a recuperação e reciclagem das embalagens e normalmente estão vinculadas a estímulos, conscientização da população e desenvolvimento de políticas públicas (Filho et al., 2015).
No âmbito académico a investigação acerca do tema vem se tornando mais relevante e por conta disso, cada vez mais artigos vêm sendo publicados. A Figura 1 apresenta os resultados de uma pesquisa realizada com a palavra-chave “reverse logistics” em duas plataformas de busca acadêmica, Google Scholar e b-on, no perído 2000-2020. Pode-se observar que este tema se encontra, segundo a metodologia da Curva S de Ernst (1997), num estágio de crescimento. Neste contexto, verificou-se que a LI é uma das muitas linhas de pesquisa ligada ao gerenciamento da cadeia de suprimentos, com crescente importância e que a comunidade acadêmica, cada vez mais está a desenvolver pesquisas neste âmbito.
Atualmente, o conceito da LI inclui muitas atividades, por exemplo, gestão de resíduos, reciclagem, reutilização, reprocessamento e recuperação de materiais, que podem ajudar qualquer organização a converter as suas oportunidades em lucro. Portanto, a adoção de práticas de LI passou a implicar em um potencial para acrescentar um maior impacto no desempenho económico e ambiental das empresas (Wang & Jiang et al. 2019).
A implementação da LI pós-consumo, foco do estudo em questão, apresenta-se interessante para as organizações recuperarem os custos de produção por meio do retorno dos produtos, seguindo para novos ciclos em mercados secundários através da reciclagem e do aproveitamento de componentes.
Figura 1 – Resultados da pesquisa da palavra-chave “reverse logistics” nas plataformas Google Scholar e b-on no período de 2000-2020.
Para que a LI ocorra alguns fatores possuem importância no processo (canais de distribuição, comunicação, participação do consumidor, etc) sendo a participação do consumidor no processo o foco do estudo em questão.
Diversos autores (do Valle et al., 2004; Bezzina e Dimech, 2011; Calvin et al., 2012; Kianpour et al., 2017) estudaram o comportamento do consumidor atrelado a LI, tentando perceber assim os fatores e atitudes no processo de decisão de compra do consumidor no âmbito do descartar demonstrando cada vez mais a importância do consumidor para o processo da LI.
Percebeu-se, portanto, que o fator ambiental e as vantagens competitivas passaram a ser um fator relevante para a realização do descartar correto de embalagens em alguns países, o que não era observado em estudos anteriores, demonstrando uma maior inclinação dos consumidores para uma responsabilização dos atos, para temas de sustentabilidade (com foco no pilar ambiental) e para a mutabilidade do processo decisório de acordo com as mudanças na sociedade.
Considerando que muitas empresas começaram a adotar a Logística Inversa (LI) como estratégia, o comportamento do consumidor passou a ser uma condicionante. Neste sentido a problemática desta pesquisa envolve uma análise do processo de LI de resíduos em Portugal, tendo como foco os fatores que levam os consumidores a realizarem a reciclagem dos resíduos. A pesquisa visa responder à seguinte questão: Quais os fatores e atitudes que influenciam o consumidor residente em Portugal a realizar a Logística Inversa?
Obter informação sobre o comportamento do consumidor, avaliando a sua perceção, atitudes e os fatores para realizar a LI, é o propósito subjacente ao estudo que tem como objetivo geral identificar os fatores e atitudes que influenciam o consumidor a praticar a LI, mais especificamente a reciclagem.
Bezzina F. H., Dimech S., (2011),”Investigating the determinants of recycling behaviour in Malta”, Management of Environmental Quality: An International Journal, Vol. 22 Iss 4 pp. 463 – 485.
Calvin, W., Ronnie, C., & Geoffrey, Q. S. (2012). Recycling attitude and behaviour in university campus: a case study in Hong Kong. Facilities, 30(13/14), 630–646.
Da Silva, A. F.; Mattos, U. A. de O.. Logística reversa – Portugal, Espanha e Brasil: Uma revisão bibliográfica. Revista Internacional de Ciências, [s.l.], v. 9, n. 1, p. 35-52, abr. 2019.
do Valle, P. O., Reis, E., Menezes, J., & Rebelo, E. (2004). Behavioral Determinants of Household Recycling Participation: The Portuguese Case. Environment and Behavior, 36(4), 505–540.
Ernst, Holger. The use of patent data for technological forecasting: the diffusion of CNC-technology in the machine tool industry. Small business economics, [S.l.], v. 9, n. 4, p. 361-381, 1997.
Figueiredo, P. J. (2014). Logística inversa no mercado de telemóveis em Portugal.
Filho, S. T., Fonseca, M., Sena, M. De, Talhas, I. B., Laudelina, J., & Regina, M. (2015). Gestão de Resíduos Pós Consumo : uma proposição de Logística Reversa para o esmalte de unhas. Revista Eletrônica Em Gestão, Educação e Tecnologia Ambiental, 19(1), 441–449.
Kianpour, K., Jusoh, A., Mardani, A., & Streimikiene, D. (2017). Factors Influencing Consumers ’ Intention to Return the End of Life Electronic Products through Reverse Supply Chain Management for Reuse , Repair and Recycling. MDPI Sustainability Article, 9, 23.
Leite, P. R. (2002). Logística reversa. Revista Tecnologística, 6. https://limpezapublica.com.br/textos/logistica_reversa_-_nova_area_da_logistica_empresarial_(1).pdf
Silva, A. A. da, & Leite, P. R. (2012). Empresas brasileiras adotam políticas de logística reversa relacionadas com o motivo de retorno e os direcionadores. RGSA – Revista de Gestão Social e Ambientl, 79–92.
Wang, H., et al., 2019, An integrated MCDM approach considering demands-matching for reverse logistics. Journal of cleaner production 208: 199-210.
Logística Inversa; Consumidores; Portugueses

